O racismo pode se esconder sob o rótulo do bullying nas escolas. Especialistas explicam como identificar as duas violências e por que cada uma delas exige uma resposta própria
REPORTAGEM Ingrid Yurie
Um apelido pejorativo repetido rotineiramente, uma piada, um empurrão no recreio. Para o olhar apressado, tudo isso pode parecer bullying. Mas, além de diferenciar o que é um desentendimento pontual de bullying, há outra camada a ser considerada. Quando a agressão é motivada pela aparência física ou por razões culturais, mesmo que de forma velada, ela tem outro nome e outro peso: é racismo. Não confundir as violências é o primeiro passo para enfrentá-las; afinal, tratar uma como se fosse a outra invisibiliza a dor e o tamanho do problema.
Racismo e bullying não são equivalentes. Uma situação pode reunir as duas questões, mas o racismo acrescenta à violência individual uma dimensão histórica e estrutural relacionada às hierarquias raciais.
“Bullying é uma violência sistemática, intencional e ocorre entre pares, ou seja, pessoas de mesmo status social e idades próximas (entre estudantes, por exemplo), e conta com um grupo de espectadores. Não costuma ser uma violência física, o que faz com que muitos adultos reduzam a gravidade dos impactos”, explica Catarina Carneiro Gonçalves, doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora especializada em Convivência e Bullying.
O racismo é um fenômeno que desumaniza pessoas e marca estruturalmente a distribuição desigual de acesso a oportunidades, recursos, informações e poder, como definem os Indicadores da Qualidade na Educação – Relações Raciais na Escola, documento de referência nesse tema, elaborado pela Ação Educativa, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Ministério da Educação (MEC), dentre outros parceiros.
Trata-se de um conjunto de crenças e valores baseado na ideia de que os seres humanos seriam “naturalmente” desiguais em função da cor da pele, do cabelo e de outras características físicas e/ou culturais, e que essa desigualdade ditaria a superioridade de uns sobre os outros. Assim, o racismo acaba sendo um obstáculo para a construção de relações respeitosas, de reconhecimento positivo e de solidariedade entre as pessoas.
A discriminação racial, por sua vez, é o racismo em ação. Ela pode se manifestar por meio de agressões e humilhações, como piadas, xingamentos, apelidos e violência física; ou de forma mais sutil, pela distância social e distribuição desigual de afeto e de expectativas. Esse tipo de discriminação pode envolver crianças, estudantes, profissionais da educação e familiares.
A importância da nomeação adequada
Dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mostram que 39,8% dos estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos relataram ter sofrido bullying na escola, segundo levantamento realizado em 2024 e divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2026. As meninas são as principais vítimas, com um índice de cerca de 30,1%, contra 24,3% dos meninos. Foram entrevistados alunos de escolas públicas e privadas.
Do mesmo ano, a pesquisa Clima Escolar e Enfrentamento ao Racismo na Escola, realizada pela Fundação Itaú e pelo Equidade.Info em 160 escolas públicas e privadas de todas as regiões do País, mostrou que 54% dos professores já presenciaram casos de racismo na escola, mas nem todos sabem o que é necessário ser feito para enfrentar esse tipo de situação. Dentre os professores autodeclarados brancos, 21% afirmaram não saber como agir diante de um caso de bullying, enquanto entre os professores negros a porcentagem é de 9% – o que evidencia uma variação em função da cor da pele. Mas esses dados podem estar subnotificados, porque o racismo, como apontam os Indicadores da Qualidade na Educação, muitas vezes é ocultado sob o bullying.
Nomear as violências adequadamente é fundamental para não invisibilizar dores e nem o tamanho do problema. “Um ato de racismo ou misoginia não é individual. Ele pode ter sido cometido contra uma pessoa, mas diz respeito a um grupo”, explica Ismael dos Anjos, jornalista, fotógrafo e fundador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN).
Enquanto o bullying pode ser praticado e sofrido por qualquer um, independentemente dos marcadores sociais da diferença, e se encerra quando a dinâmica do grupo é interrompida, o racismo depende de uma estrutura de poder mais ampla e segue operando no imaginário, nas relações e na autoimagem da criança. “O racismo fere a dignidade humana e pode produzir marcas profundas na saúde física e mental, afetando a criança e, por vezes, também sua família”, resume Juliana de Paula Costa, coordenadora do nível 1 (G5, 1º e 2º ano do Ensino Fundamental) da Escola Vera Cruz.
O que a punição não alcança
Suspensão e advertência, sozinhas, não resolvem casos de bullying, e Catarina explica por quê. “O autor [do bullying] tem uma hierarquia de valor invertida. Ele acha que precisa desse tipo de comportamento para ter prestígio social diante do grupo. E, para a vítima, tem-se a negação da construção de uma identidade com valor, porque nessa fase da vida é perante os colegas que crianças e jovens constroem a própria identidade”.
A resposta eficaz, segundo ela, precisa atuar em três dimensões ao mesmo tempo: interdição dos autores, apoio ao alvo e engajamento dos espectadores. A exposição pública do autor, além de vedada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é contraproducente. “Ele canaliza toda a sua energia para proteger sua imagem, em vez de refletir sobre o que precisa alcançar. Quando a dignidade é respeitada, ele fica mais aberto e com condições de pensar sobre o mundo e os efeitos dos seus feitos para poder mudar”, observa Catarina.
A especialista explica que o bullying costuma ser velado diante das autoridades e que a vítima dificilmente procura ajuda de adultos, mas as próprias crianças e os adolescentes sabem o que está acontecendo. Por isso, o trabalho com o grupo deve ser sistemático.
“Deve-se apostar no protagonismo dos estudantes, com momentos intencionais e formativos em que aprendam a apoiar colegas em sofrimento, na linha das equipes de ajuda desenvolvidas na Espanha. Apoiar, encorajar, levar os estudantes a sentir o bem-estar que temos quando apoiamos outra pessoa”, resume Catarina.
As equipes de ajuda foram criadas pelo professor espanhol José Maria Avilés Martínez e partem do princípio da tutoria entre iguais. Dessa forma, estudantes escolhidos pela turma escutam, acolhem e resolvem conflitos por meio de estratégias colaborativas, de empatia, respeito e responsabilidade coletiva, sempre com o acompanhamento de professores. Um de seus principais objetivos é o de transformar o espectador, figura central na dinâmica do bullying, em alguém que intervém.
Quando o caso é de racismo, Juliana lembra que é preciso enfrentamento coletivo e multidimensional, passando por currículo, contratações, formação de professores e projeto pedagógico. Isso evita que a escola só aja quando ocorre um episódio de violência e faz com que a educação antirracista se torne institucional. (Leia mais sobre o assunto em “Como educar para uma convivência ética?”).
Para saber mais
PODCAST Zum-Zum no Vera – Episódio 10
Conversa entre Catarina Carneiro Gonçalves, doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora especializada em Convivência e Bullying; e Ismael dos Anjos, jornalista, fotógrafo e fundador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN).