Projeto de extensão entre Instituto Vera Cruz e Emef Marc resulta em ebook de indicações literárias

Catálogo elaborado por estudantes de Pedagogia traz orientações para os professores do Ensino Fundamental trabalharem livros alinhados aos princípios da Educação para as Relações Étnico-Raciais 

REPORTAGEM Érica de Faria Dutra* 

Do encontro entre a faculdade e a escola pública, mediado pela escuta atenta das demandas reais da docência, surgiu um e-book de indicações literárias para estudantes do Ensino Fundamental. O projeto foi desenvolvido com a turma do 3º ano do curso de Pedagogia do Instituto Vera Cruz e teve como ponto de partida o diálogo com professores da Escola Municipal de Ensino Fundamental Profa. Maria Aparecida Rodrigues Cintra, conhecida como Emef Marc, localizada na Brasilândia, zona norte de São Paulo. Os professores compartilharam com os alunos do Instituto um desafio recorrente em suas práticas: ampliar o repertório literário oferecido às crianças e aos adolescentes por meio de obras que contemplam diferentes formas de representatividade, sem abrir mão da qualidade estética e literária. 

A partir dessa provocação, a turma do curso de Pedagogia iniciou um trabalho de pesquisa, leitura, análise e discussão de livros destinados ao público infantil e juvenil. Mais do que buscar títulos que abordassem diversidade, o grupo assumiu o compromisso de construir uma curadoria literária consistente, capaz de articular experiências estéticas significativas, pluralidade de vozes, potência narrativa e qualidade editorial. Assim, a seleção das obras não se restringe a critérios temáticos, mas considera aspectos como linguagem, construção narrativa, projeto gráfico, relações entre texto e imagem, complexidade simbólica e possibilidades de fruição leitora. 


Literatura, representatividade e formação leitora 

O processo de curadoria envolveu a leitura compartilhada de um conjunto amplo de obras, debates coletivos e reflexões sobre o papel da literatura na formação de leitores. Em diferentes momentos, os estudantes puderam discutir como determinadas narrativas ampliam perspectivas sobre infância, identidade, pertencimento, corpo, território, relações familiares e modos de existir no mundo. Também foi possível refletir sobre os riscos de escolhas pautadas apenas por intenções morais, que esvaziam a potência literária dos textos. 

Ao final desse percurso, foram escolhidas 32 obras para compor o e-book. A seleção reúne livros capazes de oferecer experiências literárias sensíveis e diversificadas, e valorizar autores, personagens e contextos historicamente pouco representados nos acervos escolares. Obras com protagonismo negro, indígena, periférico, feminino e de diferentes configurações familiares compõem um conjunto pensado como convite à ampliação de repertórios e olhares. 


As resenhas literárias como apoio à mediação docente 

Outro aspecto central da experiência foi a produção de resenhas literárias, cujo objetivo era apresentar as obras e também apoiar o planejamento da mediação docente. Nesse sentido, as resenhas assumem o duplo propósito de informar e formar. Para isso, além de contextualizar os livros e destacar seus elementos narrativos e estéticos, os textos preparados pelos futuros pedagogos discutem as características literárias que podem orientar intervenções pedagógicas dos professores em sala e favorecer a construção de sentidos pelas crianças. Essas características são conhecidas como chaves de leitura, segundo definição da especialista argentina Cecília Bajour, e servem como portas de entrada para a apreciação do livro.  

Assim, tais resenhas apresentam, por exemplo, a possibilidade de explorar a voz narrativa, as metáforas, o humor, as relações entre palavra e imagem, a construção do tempo e do espaço narrativo, a musicalidade da linguagem ou as ambiguidades presentes nas histórias. Em vez de oferecer roteiros fechados de atividades, os textos sugerem caminhos possíveis para a mediação leitora, reconhecendo o professor como sujeito criador de práticas e o estudante como leitor ativo na construção de sentidos. 

A elaboração desse material também mobilizou discussões importantes sobre o papel da formação docente na construção de comunidades leitoras. Para muitos estudantes de Pedagogia, o projeto representou uma oportunidade de aprofundar a própria relação com a literatura ao exercitar uma leitura mais atenta, crítica e sensível. Ao mesmo tempo, possibilitou compreender que a escolha de livros para a infância envolve responsabilidade ética, estética e política. 

Ao acolher uma demanda concreta dos educadores da rede municipal, o projeto fortaleceu a ideia de uma formação inicial conectada às realidades educacionais e comprometida com práticas socialmente significativas. Também, permitiu aos estudantes do Instituto Vera Cruz participarem de um processo formativo que articulou teoria, leitura literária, escuta docente e reflexão pedagógica. 

O e-book resultante desse percurso constitui um catálogo de livros elaborado coletivamente e marcado por experiências de leitura, debates e escolhas cuidadosas. Sua produção reafirma a literatura como espaço de encontro, imaginação e ampliação de mundos possíveis, especialmente no contexto escolar, no qual o acesso a narrativas diversas pode contribuir para a formação de leitores mais críticos, sensíveis e atentos à pluralidade humana. 

A experiência também evidencia a relevância da formação inicial de professores comprometida com os estudos da Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER), que compreende a escola como espaço fundamental para a valorização da diversidade, o enfrentamento das desigualdades e a efetivação de práticas pedagógicas mais inclusivas e representativas. 

*Érica de Faria Dutra é professora do Instituto Vera Cruz e foi responsável pela orientação da curadoria literária, ao lado das estudantes de Pedagogia. 

Para saber mais 

EBOOK Literatura e leitura na escola, projeto de extensão universitária do Instituto Vera Cruz. 

LIVRO Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura, de Cecília Bajour. Pulo do Gato, 2012. 

PROJETO LITERATURA E LEITURA NA ESCOLA

PROFESSORA Érica de Faria Dutra  

COORDENADORA DA EXTENSÃO Cristina Figueira  

COORDENADORA DO INSTITUTO VERA CRUZ Andréa Luize 

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.