Olhares que transformam a convivência 

O papel da formação dos professores na observação das brincadeiras e na ampliação de referências para as crianças 

REPORTAGEM Ingrid Yurie  

A observação atenta do professor é essencial para compreender as relações que as crianças constroem nas brincadeiras, bem como para reconhecer momentos que podem se transformar em oportunidades de aprendizagem. 

No caso de Rafael José da Silva, esse olhar foi fortalecido pela formação continuada. As reflexões provocadas por diversas leituras, como, por exemplo, Memórias da plantação, de Grada Kilomba, ajudaram o professor a ampliar sua compreensão sobre as relações entre as crianças. Com mais atenção às brincadeiras e aos momentos de convivência, ele passou a perceber aspectos da rotina que antes poderiam passar despercebidos, identificando importantes possibilidades de intervenção e aprendizagem. 


A formação como caminho para a transformação da prática 

O tema entrou nos momentos de formação, que envolveram a leitura e a discussão de autores como Grada Kilomba, Ibram X. Kendi e Robin DiAngelo, além de outros estudos e ações formativas. Dentre eles, está o curso Branquitude e Infâncias, promovido pelo Sesc e realizado por Rafael, cujas propostas também contribuíram para ampliar o debate na equipe. Esses espaços de reflexão fortaleceram a observação das relações construídas pelas crianças no cotidiano. 

As discussões intensificaram a compreensão de que a construção de uma educação antirracista exige um trabalho permanente e compartilhado. Mais do que identificar episódios pontuais, era necessário desenvolver uma postura investigativa capaz de reconhecer padrões, registrar situações e refletir sobre as intervenções mais adequadas em cada contexto. 

Nesse processo, a documentação pedagógica ganhou papel central. O registro de falas e comportamentos permitiu acompanhar transformações ao longo do tempo, compreender melhor as dinâmicas do grupo e avaliar os efeitos das ações realizadas. 

Para Rafael, toda a equipe precisa estar comprometida com a observação, o estudo, o registro e a intervenção, entendendo que a formação antirracista não se encerra na leitura de um único livro ou em uma ação isolada, mas se constitui como um exercício permanente de reflexão e aprendizagem. “Precisamos de um olhar atento em rede, em que todos estejam alinhados para ter condições de reconhecer mesmo o que pode vir a ser uma mínima violência, registrar e intervir de forma adequada”. 


Brincadeiras que aproximam e fortalecem vínculos 

Com base nos aprendizados construídos ao longo desse percurso formativo, as brincadeiras tornaram-se um importante campo de atuação pedagógica. Rafael reorganizou alguns momentos da rotina para favorecer experiências coletivas de convivência, evitando a fragmentação da turma em pequenos grupos que pouco interagiam entre si. 

A intenção era ampliar as oportunidades de encontro, a colaboração e a construção de vínculos entre as crianças. Ao acompanhar essas experiências de perto, o professor criava condições para intervir quando necessário e apoiar relações mais respeitosas e inclusivas. Nesse contexto, as brincadeiras consolidaram-se como espaços privilegiados de aprendizagem, pertencimento e construção de novas formas de convivência. 


A literatura como experiência de reconhecimento e ampliação de referências 

Outro elemento fundamental desse percurso foi a literatura. Compreendendo a potência dos livros na formação da identidade e na construção do imaginário infantil, Rafael selecionou obras escritas por autores e autoras negras e que apresentavam personagens negros em contextos de protagonismo, criatividade, potência e inspiração. 

As leituras compartilhadas abriram espaço para novas narrativas e referências. Assim, as crianças começaram a ter contato com histórias que valorizavam diferentes experiências e modos de ser, ampliando suas possibilidades de identificação e reconhecimento. 

Os efeitos dessas vivências apareceram nas próprias falas do grupo. Uma criança afirmou, encantada: “Eu amo este livro, fala sobre uma deusa”. Outra observou uma personagem e comentou: “O black power dela parece uma coroa”. Houve ainda quem trouxesse para a roda a reflexão: “Hoje em dia o racismo ainda acontece”. 

Esses momentos revelavam não apenas o envolvimento com as histórias, mas também a ampliação das referências culturais e estéticas das crianças. A literatura tornou-se, assim, uma importante ferramenta para promover identificação, fortalecer a autoestima e ampliar a percepção de diferentes formas de ser e estar no mundo. “A questão da referência é muito importante, porque ela muda a nossa cultura ao mostrar outras possibilidades para as pessoas negras estarem no mundo”, diz o professor. 

Construindo pertencimento todos os dias 

Rafael observou a construção de um clima de maior confiança, no qual as crianças passaram a expressar com mais segurança seus desejos, opiniões e sentimentos, fortalecendo também o sentimento de pertencimento ao grupo. 

Para o professor, os resultados mais significativos apareceram nas relações construídas no dia a dia. Ao longo do percurso, as crianças ampliaram suas referências, consolidaram vínculos e passaram a interagir de forma mais respeitosa e acolhedora. As mudanças aconteceram aos poucos, mas revelaram a potência de um trabalho intencional, sustentado pela observação, pelo diálogo e pela escuta. 

Nesse caminho, as brincadeiras e as experiências literárias tiveram papel fundamental. Além de favorecer encontros e trocas entre as crianças, abriram espaço para novas descobertas, diferentes perspectivas e a construção de vínculos mais significativos. Assim, a formação contínua, aliada às práticas de leitura e brincadeira, mostrou-se um caminho importante para ampliar repertórios, promover aprendizagens e qualificar a convivência no grupo. 

Para saber mais   

LIVRO  Amoras, de Emicida. Companhia das Letrinhas, 2018.  

LIVRO  Escola de chuva, de James Rumford Brinque-Book, 2012.  

LIVRO  O mundo no black power de Tayó, de Kiusam de Oliveira. Peirópolis, 2013.   

LIVRO  Sulwe, de Lupita Nyong’o. Rocquinho, 2021. 

LIVRO Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba. Tradução de Jess Oliveira. Cobogó, 2019. 

LIVRO Não basta não ser racista: sejamos antirracistas, de Robin Diangelo. Tradução de Armando Barsante. Faro Editorial, 2020. 

LIVRO  Como ser antirracista, de Ibram X. Kendi. Tradução de George Schlesinger. Alta Cult, 2020. 

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.