Investigando as muitas histórias do continente africano

A eletiva Áfricas oferece aos estudantes do 3º ano do Ensino Médio a possibilidade de se aprofundar nas múltiplas narrativas, riquezas e complexidade dos países africanos   

REPORTAGEM Mariana Gonzalez  

Para compreender a multiplicidade de histórias e realidades do continente africano e romper com visões estereotipadas frequentemente presentes no imaginário social, que colocam tudo em uma única perspectiva, desconsiderando as diferenças entre os países, os estudantes do último ano do Ensino Médio podem, desde 2024, escolher cursar a eletiva Áfricas. 

“A disciplina surgiu da necessidade de olhar para o continente africano com mais atenção”, explica o professor Uyrá Santos. O plural no nome da disciplina já indica que a abordagem dá ênfase à diversidade cultural e de narrativas históricas. Para isso, o curso articula história, cinema, literatura, música, esporte e política em uma perspectiva interdisciplinar, valorizando metodologias investigativas e autorais.  

Assim, mais do que apresentar conteúdos históricos – Egito Antigo, tráfico transatlântico no século 19, a independência de diversos países no século 20 e os conflitos geopolíticos da atualidade –, a eletiva Áfricas busca construir espaços de pesquisa, escuta e produção crítica, estimulando os estudantes a compreenderem a pluralidade das experiências africanas e suas conexões com o Brasil contemporâneo.  

“Também olhamos para produções culturais, especialmente filmes e documentários, para desmistificar a construção sistemática da África como um grande bloco sem diferenças históricas e culturais. E para a economia do continente, a fim de tirar da frente a ideia de que é uma região pobre”, diz Uyrá.  

A riqueza do continente, aliás, é um dos maiores aprendizados da turma, comenta o professor. “Eu começo a primeira aula mostrando fotos do cobalto, um metal conhecido como ouro azul, que está em disputa na atual República Democrática do Congo. Esse país detém as maiores reservas desse minério, que é a matéria-prima das baterias de lítio [usadas em eletrônicos portáteis, veículos elétricos e sistemas de energia solar, dentre outras opções]”, conta Uyrá. “Assim, logo de cara, os estudantes descobrem que estamos falando de um continente extremamente rico. Isso é essencial para eles perceberem que o que a gente entende hoje como pobreza é, na verdade, uma construção histórica.”  

Para Manuela T., a disciplina Áfricas ampliou os horizontes. “As aulas foram importantes não só para a minha formação como aluna, mas também para minha formação como indivíduo. Percebi que conhecia pouco de um continente tão rico, e entender a razão disso e o legado da cultura africana para todo o mundo vem sendo uma experiência valiosa.”  


Teoria e prática unidas em processo investigativo 

Ao longo do semestre, os estudantes têm aulas teóricas e práticas, e recebem duas grandes missões: a primeira é um projeto de pesquisa, em que cada aluno fica responsável por estudar um dos 54 países africanos – analisando desde dados demográficos e econômicos até o significado da bandeira e o ano em que se tornou independente; a segunda é o trabalho final, que precisa utilizar ao menos dois conceitos apresentados em sala de aula, mas cujo formato e tema são livres.  

“Eu gosto muito dessas duas propostas – uma no começo e uma no final da disciplina. A pesquisa cria uma base importante e faz com que os estudantes entendam a complexidade do continente africano. Em alguns países, há cinco ou seis idiomas diferentes, por exemplo. Depois eles passam por aulas teóricas, leituras e discussões para alçar voos maiores e entregar um trabalho profundo e criativo, com mais autonomia”, resume o professor.  

Nessa trajetória, o curso já incorporou análises audiovisuais e debates teóricos sobre colonialismo, memória, tecnologia e representação. A análise do curta-metragem Pumzi, associada à leitura de textos teóricos, serviu de base para discussões sobre afrofuturismo, culminando na produção de artes autorais inspiradas no movimento. Além disso, a leitura de Como a Europa subdesenvolveu a África, de Walter Rodney, foi articulada à análise do documentário Dahomey, de Mati Diop, e do filme Beasts of no nation, de Carl Fukunaga, permitindo reflexões sobre colonialismo, restituição de patrimônios africanos, guerras civis, violência, neocolonialismo e os impactos históricos da exploração europeia no continente africano. 

O resultado dessas investigações reflete a diversidade de pontos de vista construídos e a criatividade da turma. Há alunos que escolhem apresentar uma maquete, outros gravam um podcast, produzem um fanzine ou pintam uma aquarela, dentre outras possibilidades. No ano passado, um grupo fez uma revista sobre reinos africanos antigos.  

Para o aluno Enrico N., esse foi um dos maiores trunfos da eletiva. “Gosto da didática de estimular processos avaliativos por meio de pesquisas e trabalhos livres, que acabam sendo muito mais proveitosos do que avaliações isoladas”.  

O Prof. Uyrá percebe que os estudantes que optam por cursar sua disciplina, em geral, chegam à sala de aula com algum interesse prévio no assunto, seja porque são fãs de expressões culturais com forte ligação com a cultura africana, como rap e futebol, seja por uma conexão com religiões de matriz africana ou porque estão passando por um processo de entender a própria negritude. 

A Alice M. G., por exemplo, escolheu cursar a eletiva Áfricas depois de uma viagem para a África do Sul, em 2024. Ela contou que as discussões que teve dentro da disciplina e a visita que fizeram ao Museu Afro Brasil a ajudaram a “despertar ainda mais a ‘Alice artivista’”, ou seja, uma pessoa que usa a arte para discutir causas que considera importantes. “Fico muito feliz em estudar em uma escola que proporciona experiências assim”, finaliza. 

Para além do interesse específico pelo continente africano, cursar essa eletiva é uma possibilidade de conhecer uma parte importante da história mundial e de suas implicações no Brasil, bem como de experienciar projetos de pesquisa e debates coletivos contrapondo história e contemporaneidade, o que colabora para os estudantes desenvolverem senso crítico e capacidade investigativa e argumentativa, habilidades necessárias para a formação geral.   

Para saber mais 

DOCUMENTÁRIO Dahomey, dirigido por Mati Diop, 2024. 

CURTA-METRAGEM Pumzi, dirigido por Wanuri Kahiu, 2009. 

LIVRO Como a Europa subdesenvolveu a África, de Walter Rodney. Boitempo Editorial, 2022. 

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.