Luiza Mahin conduz o Carnaval das crianças  

A biografia de uma das figuras mais centrais na história do Brasil foi tema de estudo para as turmas do 2º ano, em processo que articulou diversas áreas do conhecimento e resultou na criação de uma escola de samba

REPORTAGEM Dimítria Coutinho  

“Agora eu vou chamar 

Luiza Mahin pra festejar 

Eu vou chamar 

Luiza Mahin pra festejar 

Ela viveu, ela viveu lá na Bahia 

Mas ela viveu lá na Bahia 

Vendendo seus quitutes com as cartas escondidas 

Vendendo seus quitutes com as cartas escondidas” 

Este é o início do samba-enredo composto e interpretado em coro pelas crianças do 2º ano do EF no Carnaval deste ano. Alunos e alunas criaram coletivamente a escola de samba Unidos das Quituteiras, cujo desfile homenageou Luiza Mahin, um dos grandes símbolos da resistência negra no Brasil. 

Uma das cenas mais representativas do desfile foi a apresentação da ala das quituteiras, na qual as crianças distribuíram quitutes feitos por elas mesmas. A representação buscou retratar a própria história de Luiza Mahin, que usava seu tabuleiro como fachada para articular levantes históricos, como a Revolta dos Malês. Em meio aos doces e salgados, ela escondia bilhetes e outros tipos de mensagens. 

“Essa cena das crianças distribuindo os doces para o público me marcou muito, porque materializa o que foi trabalhado. Por meio do alimento, vimos o conhecimento ser compartilhado com outras pessoas”, comenta Ana Carolina Motta, orientadora do Vera. 


Da biografia para o todo da história 

O trabalho com a biografia de Luiza Mahin partiu de uma concepção ampla sobre o que é o carnaval, as escolas de samba e os sambas-enredo. Festejar o carnaval dentro da escola já é uma prática, que concebe essa vivência como uma oportunidade de ampliar o repertório cultural dos estudantes ao colocar no centro outras vozes e histórias.  

Muito antes de ser promulgada a lei nº 10.639, que torna obrigatório o ensino da história afro-brasileira e africana nas instituições de ensino, a escola de samba Salgueiro, em 1960, colocou em destaque a história do Quilombo do Palmares e de Zumbi dos Palmares – narrativas que estavam apartadas da sala de aula.  

Em 2019, a Mangueira explicita esse apagamento com o samba-enredo de Leandro Vieira, “História para ninar gente grande”, no qual fica evidente que, muitas vezes, as escolas de samba operam na dimensão da contranarrativa oficial. Se os sambas-enredo apresentam também um caráter pedagógico, por que não os trazer para dentro dos muros da Escola? Foi justamente durante a análise do samba-enredo da Mangueira que um nome saltou aos olhos das crianças e adultos implicados nesse processo: Luiza Mahin, personagem essencial para compreender a história do Brasil até os dias de hoje.   

A equipe docente, então, organizou a pesquisa e iniciou a investigação sobre a biografia de Luiza Mahin. Por meio de materiais diversos, como vídeos e podcasts, as crianças se aprofundaram nas muitas contribuições da vida dessa extraordinária mulher para a história do Brasil. As turmas também foram convidadas a entrevistar outras vozes da Escola para investigar quem conhecia Luiza Mahin. Essa experiência proporcionou aos estudantes o trabalho com fontes primárias, parte importante do currículo das Ciências Humanas. 

“Também estudamos sobre a Revolta dos Malês. Para as crianças, ficou bastante nítida essa ideia de que para cada pessoa escravizada nasceu um movimento de resistência, sejam os quilombos, as irmandades negras ou as revoltas”, conta Ana Carolina. Esse processo ajudou a criar novas perspectivas e se distanciar de eventuais visões, segundo as quais o povo escravizado era passivo e a abolição foi uma concessão dos brancos no poder. “O Brasil é a resistência, muito além do que foi esse processo de extrema violência da escravização”, afirma Ana Carolina, que complementa: “A história de uma pessoa nunca é só sobre essa única pessoa. Quando a gente estuda essas figuras emblemáticas com as crianças, alargamos o imaginário sobre a nossa própria história para caber outras vozes”. Isso se reflete em comentários das próprias crianças. Depois de apresentados materiais sobre sambas-enredo para a turma, o professor perguntou: “Que história é essa que eles estão contando?”. A aluna Teresa C. logo respondeu: “É a história do Brasil!”. 


Construindo o Carnaval 

Em meio à investigação sobre a história de Luiza Mahin, as crianças foram criando a escola de samba e aprendendo sobre o Carnaval, uma das principais manifestações culturais do Brasil. Isso se deu com o contato com gêneros musicais diversos, como frevo, maracatu, afoxé, marchinhas e os sambas-enredo, e por conta das experiências nas oficinas de adereços, estandartes, tabuleiros, quitutes, dança e bateria, além das vivências de composição do samba-enredo. “Foi a primeira vez que toquei tambor. Emocionante!”, disse a aluna Maria Fernanda. 

Essa multiplicidade de experiências reflete a proposta interdisciplinar do trabalho sobre o Carnaval. Na hora de preparar os quitutes, a turma utilizou a matemática para organizar o uso dos ingredientes da receita. As Ciências Humanas tiveram forte participação na pesquisa sobre a biografia de Luiza Mahin e nas discussões sobre a origem dessa manifestação cultural. Já as práticas de linguagem foram exploradas na escrita de cartas para a figura histórica, na leitura e na análise de sambas-enredo. E as Artes foram representadas na dança, música e elaboração de adereços e do estandarte. 

“As crianças entraram em contato com a história do samba e dos sambas-enredo, que são fundamentais para apresentar narrativas invisibilizadas e discutir várias questões raciais e sociais”, conta o professor Danilo Santana, ​​no podcast produzido pelas crianças. “Elas também aprenderam sobre a estrutura de uma escola de samba e sobre como a questão comunitária é importante para a realização das festas brasileiras”, completa o educador, reforçando o fato de que as apresentações para o público são resultado de um trabalho que envolve a dedicação de muita gente.    

“Quando pensamos em trabalhar ritmos ligados ao Carnaval com as crianças, estamos falando de apresentar a elas uma experiência cultural viva, cheia de sentidos, que envolve som, corpo, movimento e convivência. O Carnaval faz parte da nossa cultura e carrega muitas histórias, memórias e formas de expressão”, diz o professor de Música Murilo Viana Vale. 

Carnaval como festa da coletividade 

Em anos anteriores, muitas crianças já tinham sentido o Carnaval no corpo ao brincarem e acompanharem, na Escola, diversas manifestações. Mas com esse projeto, a ideia foi lhes proporcionar oportunidades para compreender melhor conceitos diretamente relacionados a essa festa, como a ideia de coletividade. Ao vivenciarem todo o trabalho colaborativo envolvido na preparação, e de representatividade, uma vez que puderam ter uma noção do quanto o Carnaval permite resgatar histórias que muitas vezes são invisibilizadas.  

“É fundamental pensarmos no Carnaval como uma festa da resistência. Ao mesmo tempo em que as crianças estão brincando e celebrando, elas também estão enaltecendo uma história que não é apenas da população negra, mas do Brasil”, reforça Ana Carolina. 

Para saber mais 

PODCAST  Unidos do 2º ano 

ÁUDIO “Luiza Mahin, a quituteira”, episódio do podcast Calunguinha. 

LIVRO A escola do cachorro sambista, de Felipe Ferreira e Mariana Massarani. Ática, 2009. 

LIVRO O corpo encantado das ruas, de Luiz Antonio Simas. Civilização Brasileira, 2019. 

LIVRO Samba de enredo: história e arte, de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas. Civilização Brasileira, 2023. 

LIVRO Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Record, 2006. 

TEXTO Os sambas enredos explicam o mundo: possibilidades pedagógicas dos enredos no ensino de história”, de Luiza Sarraff, Arthur Dupim e Lucas Silva.

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.