Durante a fliVera, turmas de 5º ano participaram de oficina de slam, na qual puderam conhecer uma manifestação artística marcada pela valorização de diferentes vozes e narrativas
REPORTAGEM Nairim Bernardo

Surgido nos Estados Unidos durante a década de 1980 e popularizado no Brasil a partir de 2008, os slams são batalhas de poesia falada. Nas apresentações individuais, que duram até três minutos, o texto e a performance dos poetas são igualmente importantes. Não é permitido utilizar figurino, cenário ou instrumento musical. Eles são avaliados por jurados escolhidos aleatoriamente na plateia.
Como corpo e voz são essenciais para a experiência do slam, essa foi a linguagem escolhida para o trabalho central com as turmas do 5º ano durante a fliVera, festa literária da escola, que, na sua última edição, teve como tema “Meu Corpo Conta Histórias”. Na ocasião, foram realizadas oficinas com Matriarcak, poeta, escritora e vice-campeã nacional do Slam BR de 2022, oferecendo uma oportunidade para os estudantes terem contato com uma referência negra que ocupa lugar de destaque na produção cultural brasileira.
A definição do tema da fliVera foi feita com base nas ideias da educadora Azoilda Loretto da Trindade, importante voz na construção de uma educação antirracista no Brasil e responsável pela sistematização dos valores civilizatórios afro-brasileiros: circularidade, corporeidade, oralidade, musicalidade, memória, ancestralidade, religiosidade, cooperativismo, energia vital e ludicidade. Assim, as propostas da festa literária foram planejadas para propor experiências que permitissem aos estudantes compreenderem o corpo como memória, identidade e pertencimento, e como instrumento que se expressa por diversas linguagens.
O trabalho começou antes, nas aulas em sala e na biblioteca. A professora Simone Zorzan, docente responsável pela biblioteca, conduziu leituras e conversas sobre as formas pelas quais o corpo se manifesta e como isso está carregado de vivências individuais e coletivas, marcadas por experiências e sentimentos. Para ajudar nas reflexões, as turmas leram e discutiram os livros A menina dos cabelos d’água, de Sidnei Nogueira, e Maior museu do mundo!, de Caio Zero.
O exercício da escuta e o respeito às diferenças
Além de ser uma atividade de linguagem e expressão artística, o slam é uma prática cultural que valoriza diferentes experiências, identidades e narrativas. Isso dialoga diretamente com o currículo do Vera, porque convida as crianças a reconhecerem a diversidade de histórias que compõem a sociedade e a compreenderem a palavra como instrumento de pertencimento, identidade e transformação social.
Esse convite se concretizou durante a oficina, que começou com a apresentação de Matriarcak falando sobre sua história e seus títulos conquistados. Em seguida, ela explicou como funciona uma batalha de slam, suas regras, jurados, pontuação e tempo. Para demonstrar como seria uma experiência real, trouxe dois poetas, Comunista e Jéssica Crispim, que realizaram um “minicampeonato” ao vivo. Os estudantes assumiram a posição de jurados, utilizando as mesmas placas de nota que a poeta geralmente usa em competições oficiais.

Esse contato permitiu às crianças ampliarem seus referenciais culturais ao conhecerem uma manifestação artística contemporânea presente em espaços públicos, uma vez que as batalhas de slam costumam ocorrer em praças, parques, bibliotecas, estações de transporte, teatros e bairros periféricos.
O slam nasceu e se consolidou como um espaço democrático de fala, escuta e expressão de grupos frequentemente invisibilizados. Hoje, há centenas de coletivos independentes espalhados por capitais e pelo interior, e são realizadas competições estaduais e municipais.
Hora de experienciar a escrita poética e performática
Depois, Matriarcak convidou os estudantes a escreverem e apresentarem seus poemas diante dos demais. “As produções revelaram criatividade, sensibilidade e, principalmente, a capacidade de refletir sobre suas próprias vivências. Muitos demonstraram compreender que a escrita pode ser um espaço legítimo para expressar sentimentos, inquietações e opiniões”, avalia a professora. Eles também entenderam que os temas podem ser os mais variados, de relações familiares a animais de estimação, de esportes a dúvidas filosóficas, de corpo e questões de gênero a racismo. “Tudo indicando um processo de identificação e elaboração pessoal por meio da linguagem poética”, completa a professora.
Confira duas dessas poesias:
“Quando eu era bem pequena, sempre falavam do meu
cabelo.
Vejo olhares desrespeitosos e passo por isso todo dia.
Isso já virou… normal. Achei que não ia doer tanto.
Não mexam no meu cabelo sem eu deixar.
Isso é muito duro.
Isso não pode mais acontecer.”
Renata S. G.
“Por que existimos?
Por que sentimos?
Alguns dizem que existimos porque somos seres
humanos.
Outros dizem que foi obra do destino.
Mas como vamos saber?
É uma questão para discutir.
Afinal, por que existimos?”
Francisco P. R. M.
Quem ficou na plateia também entrou no jogo com entusiasmo. Alguns discordavam em voz alta dos placares, outros apenas aplaudiram, e todos reagiram animados, principalmente quando a nota máxima era levantada. Os jurados estavam atentos às orientações de Matriarcak: alguns demonstraram tensão ou preocupação com a reação da plateia e outros relataram o medo de errar ou ser “injusto” com a nota dada aos colegas.
A literatura como espaço de expressão e pertencimento
Ao escolher o slam como uma das experiências da fliVera, a escola ampliou as possibilidades de encontro entre literatura, oralidade e identidade. Mais do que experimentar uma forma de escrita poética e performática, as crianças tiveram a oportunidade de conhecer uma manifestação artística marcada pela valorização de diferentes vozes e narrativas. Durante a oficina, elas exercitaram a escuta, o respeito e o reconhecimento da diversidade presente no grupo.
A atividade também dialogou com os princípios da Educação para as Relações Étnico-Raciais, ao aproximar estudantes de uma produção cultural que tem forte presença nos movimentos de afirmação da identidade negra e periférica. Ao ocupar a palavra e compartilhar suas histórias, as crianças vivenciaram a literatura como espaço de expressão, pertencimento e construção de uma sociedade mais justa e plural.
Em sintonia com as reflexões propostas por Azoilda Trindade, a oficina evidenciou que o corpo também narra. Nos gestos, na entonação, nos silêncios e nas palavras escolhidas, cada criança foi convidada a experimentar a potência de contar sua própria história e reconhecer que diferentes corpos carregam modos legítimos de existir no mundo.
Simone defende o slam como uma expressão de resistência, luta e ato político, do qual as crianças também podem fazer parte em atividades pensadas para sua faixa etária. “Para além da competição, o slam é uma ferramenta de comunicação que muda a vida das pessoas. Além de falar sobre si, a poesia performática possibilita ouvir o outro e perceber que não é preciso sofrer na pele para entender uma outra realidade e lutar junto por uma sociedade mais igualitária”, conclui.
Para saber mais
LIVRO Alice no país da periferia, de Matriarcak. Editora Fala, 2026.
LIVRO Faísca da revolução, de Mileny. Editora Fala, 2026.
DOCUMENTÁRIO Slam: voz de levante. Direção de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva. Brasil, 2017. (Disponível no Mubi.)
PROJETO MEU CORPO CONTA HISTÓRIAS
PROFESSORES Simone Zorzan
ORIENTADORA Emiliam Fátima da Cunha Santos
COORDENADORA Débora Rana
COORDENADORA DE LÍNGUA PORTUGUESA Paula Sosa