Formação da equipe de professores discute a importância de estar atento para a distribuição de afeto e cuidado, a fim de fortalecer relações mais igualitárias na Escola
REPORTAGEM Nairim Bernardo

Qual bebê não gosta de ganhar colinho? Apesar de ser um gesto comum de cuidado e afeto com os pequenos, pesquisas indicam que, em instituições educacionais, bebês negros ganham menos colo, são menos tocados, têm seus cabelos menos afagados, recebem menos ajuda e precisam ser mais independentes do que os bebês brancos.
A equipe pedagógica da Educação Infantil do Vera Cruz e parte da equipe administrativa estudaram essa questão tendo como referência o livro Democratização do colo: educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas, de Jussara Santos. Ao longo de 20 anos, a professora e pesquisadora observou situações em instituições educacionais e percebeu que a desigualdade na distribuição do afeto é um dos modos pelos quais o racismo se faz presente no dia a dia de bebês e crianças pequenas.
Coordenadora da Educação Infantil, Fabiana Meirelles explica a importância do afeto para a educação. “Todas as situações de cuidado com o corpo da criança também são educativas, pois cuidar e educar caminham juntos. Despender afeto e cuidado com seus corpos é essencial para a construção da subjetividade das crianças”, diz.
Segundo ela, a escolha da obra de Jussara Santos para uma formação pedagógica com a equipe escolar dialoga com a Lei n. 10.639/2003, que regulamenta o ensino da história e cultura africanas e afro-brasileiras. Além disso, traz para o centro do debate os bebês e as crianças pequenas, o que não é muito frequente nas discussões sobre questões raciais dentro da educação.
“A leitura me levou a pensar sobre a importância de olhar cada criança a partir de suas necessidades e experiências, reconhecendo sua individualidade sem ignorar os marcadores sociais que atravessam sua vida. Quando o afeto é distribuído de forma desigual, quando algumas crianças recebem mais cuidado, atenção e acolhimento do que outras, estamos diante de uma prática que pode reproduzir o racismo”, diz Keyla Ferreira Soares, professora do G2 na unidade Alvilândia.
A escola como espaço de acolhimento das diferenças
Essas formações pedagógicas ocorrem periodicamente no Vera Cruz, como maneira de refletir continuamente sobre a prática docente. Desta vez, no primeiro encontro, o livro de Jussara foi apresentado pelos formadores, e o grupo de 35 professores foi dividido em subgrupos de trabalho. Cada um estudou um capítulo da obra e, ao longo de outras reuniões, dividiu suas reflexões com toda a equipe. A proposta era gerar discussões, conversas e trocas a partir desse compartilhamento.
“É inconcebível pensar que crianças pretas recebam menos colo do que outras crianças. Essa é uma realidade muito triste e preocupante. Acredito que um dos caminhos para transformar esse cenário seja a realização de formações como essa, que capacitem os profissionais e toda a equipe escolar a ampliar esse olhar e desenvolver uma prática mais sensível, acolhedora e comprometida com o cuidado de todas as crianças”, defende Keyla.
A professora destaca ser essencial a construção da escola como um espaço onde as diferenças sejam acolhidas e valorizadas. “A leitura também me fez pensar sobre a necessidade de que as políticas antirracistas integrem, de forma permanente, os projetos político-pedagógicos (PPP) das escolas do meu bairro, do meu estado e do nosso país. É fundamental que os adultos atuantes nesses espaços se reconheçam como aprendizes quando o assunto são as relações humanas, especialmente em um sistema que frequentemente se esforça para negar, naturalizar e legitimar a violência contra determinados corpos”, diz.
O PPP é um documento que registra as concepções de ensino e o projeto pedagógico de uma escola, bem como o plano de ação para que toda a comunidade, coletivamente, alcance os objetivos traçados em conjunto.

Na avaliação de Fabiana, foi bonito e surpreendente observar que os professores se esforçaram para estabelecer diálogos entre o livro de Jussara, as obras de arte apresentadas durante os encontros (como as da pintora afro-cubana-americana Harmonia Rosales) e os relatos de experiência compartilhados.
A construção de um ambiente seguro foi parte fundamental do projeto de formação, que se propôs a ouvir, acolher e problematizar as vivências de professores brancos e negros. Esse compartilhamento de histórias profissionais e pessoais faz parte da metodologia de trabalho, que envolve também a maneira de lidar com os sentimentos que emergem durante as trocas e propõe reflexões para um grupo de docentes em constante processo de avanço no letramento racial.
“Somos uma equipe autônoma e potente e tínhamos confiança de que ela seria capaz de fazer e dividir reflexões. Também consideramos ser importante que a conversa nos subgrupos acontecesse entre pares e livremente, sem a Coordenação. A potência do que apareceu foi muito forte. Muitos relatos de experiência vieram à tona, incluindo desafios já vividos e situações de racismo, com alguns fazendo um chamamento ao grupo”, relembra a coordenadora.
Além do compartilhamento do colo, nas propostas apresentadas pela equipe apareceu a importância de planejar e organizar o espaço físico (brinquedos, decorações, livros, fantasias e imagens nas paredes), de modo a reflitir a pluralidade étnica e cultural presente na sociedade; a atenção à curadoria literária, privilegiando narrativas nas quais personagens negras, indígenas e migrantes sejam valorizadas em sua potência; e o respeito às restrições alimentares das crianças — candomblecistas, umbandistas, adventistas, entre outras denominações religiosas —, para que não se reproduza o racismo religioso.
No final do livro já mencionado, há uma série de cartas de mães negras enviadas a professores brancos. Atualmente, a equipe da Educação Infantil do Vera é composta por dois terços de professores brancos e um terço de negros. A formação foi encerrada com a leitura dessas cartas por parte da equipe pedagógica e administrativa.
“Como mãe de um menino preto, não posso deixar de mencionar o quanto os relatos e as discussões da formação me atravessaram. Em muitos momentos, me reconheci nas situações apresentadas e revivi experiências que marcaram minha trajetória materna”, conta Keyla. “Uma delas está relacionada aos cuidados com o cabelo crespo do meu filho. Em diferentes situações, percebi que esse cuidado foi negligenciado por pessoas responsáveis por ele. Houve momentos em que tentaram ‘baixar o volume’ de seu cabelo escovando-o repetidamente, desconsiderando suas características naturais. Em outra ocasião, em um dia frio, ele foi para a escola usando uma touca e, ao buscá-lo, encontrei seu cabelo completamente desalinhado e sem qualquer cuidado. A justificativa foi que a professora não sabia arrumá-lo”, relembra.
“Como nos provoca Jussara Santos, cuidar também é reconhecer a humanidade, a história e a singularidade de cada criança. Quando determinados corpos recebem menos atenção, menos afeto ou menos zelo, estamos diante de desigualdades que precisam ser enfrentadas”, completa Keyla.
Segundo Fabiana, a formação foi um importante passo de uma caminhada contínua. A equipe avançou no letramento racial, começou a observar melhor as relações raciais no dia a dia e está mais alinhada nas intervenções em casos de racismo.
Para saber mais
LIVRO Democratização do colo: educação antirracista para e com bebês e crianças pequenas, de Jussara Santos. Papirus, 2025.
LIVRO A evolução psicológica da criança, de Henri Wallon. Martins Fontes, 2019.
PINTURA Harvest, de Harmonia Rosales.