“Convivência ética é um objeto de conhecimento e precisa estar no currículo”

Rosi Rico

Ninguém nasce sabendo conviver. Respeitar quem pensa diferente, lidar com o conflito e assumir responsabilidade pelo outro são habilidades que podem ser aprendidas, e é por isso que, para Catarina Carneiro Gonçalves, a convivência ética deveria ocupar lugar no currículo escolar. “Crianças e adolescentes só podem aprender se experimentarem esse tipo de convivência”, afirma a doutora em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisadora especializada em Convivência e Bullying.

Mas do que exatamente estamos falando? Catarina define a convivência ética como uma maneira de se relacionar com as pessoas tendo como princípios o respeito, a responsabilidade, a justiça, a solidariedade e o cuidado com o outro.

Ismael dos Anjos acrescenta uma camada histórica a essa discussão. Jornalista, fotógrafo e fundador do Instituto de Defesa da População Negra (IDPN), ele coordenou o projeto que deu origem ao documentário O silêncio dos homens, sobre o desenvolvimento das masculinidades no Brasil. Para Ismael, não se pode pensar em conviver bem sem lembrar que “essa convivência e esse acesso ao espaço escolar nem sempre estiveram garantidos para boa parte das populações, seja para as mulheres, seja para pessoas negras, seja para pessoas com deficiências”. Ele propõe que “uma das coisas que a gente pode fazer para alcançar uma convivência ética é pensar em equidade”.

No podcast Zum-Zum no Vera, Catarina e Ismael conversaram sobre:

  • a escola como espaço privilegiado para o contato com a diferença e o aprendizado da alteridade;
  • o impacto da interseccionalidade – ou seja, os marcadores sociais como raça, gênero, classe, deficiência, sexualidade, religião e território – na maneira como as pessoas se relacionam;
  • o conflito como experiência formativa e os limites do que não pode ser tolerado, como o racismo e a misoginia;
  • a inclusão da convivência no Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola, documento que registra valores, objetivos, concepções pedagógicas, projetos institucionais e planos de ação escolares;
  • as práticas pedagógicas que a escola precisa planejar para estimular esse aprendizado;
  • a necessidade de envolver as famílias na construção de uma convivência ética; e
  • a importância de incluir o tema da convivência ética na formação dos professores.

No episódio também são apresentadas reportagens da edição 10 da revista Zum-Zum. Uma delas acompanha as turmas de 2º ano na criação de uma escola de samba e de um samba-enredo inspirado em Luiza Mahin. Outra reportagem conta como a parceria entre o Instituto Vera Cruz e uma escola pública resultou em um ebook contendo indicações literárias alinhadas aos princípios da Educação para as Relações Étnico-Raciais.

Para saber mais

REPORTAGEM  Interseccionalidade – ou tudo ao mesmo tempo agora contra a desigualdade, reportagem da edição 4 da Zum-Zum.

COLUNA Masculinidades negras: a intersecção de raça e gênero, texto de Silvane Silva para a edição 5 da Zum-Zum.

LIVRO Interseccionalidade, de Carla Akotirene. Coleção Feminismos Plurais, Pólen Livros, 2019.

LIVRO Interseccionalidade, de Patricia Hills Collins e Sirma Bilge. Boitempo Editorial, 2021.

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Luiz Lira

Luiz Lira morou em Pernambuco e lá iniciou o desenho. Ao vir para São Paulo, começou a fazer gravuras ainda criança, quando entrou no Instituto Acaia. Seus estudos tiveram relação com a capoeira, o desenho e a cerâmica; essas três vertentes estruturam o seu fazer artístico hoje. Posteriormente, ingressou no Instituto Criar e fez formação em Cinema. A partir daí, dedicou-se aos estudos para vestibulares em universidades, assim participou do Acaia Sagarana. Lira ingressou na Unicamp e atualmente cursa Artes Visuais.  A experiência universitária faz com que se aproxime de outros grupos de gravuras, como Ateliê Piratininga e Xilomóvel. Também tem contato com Ernesto Bonato, que é um grande artista e pessoa. Trabalha em ateliês compartilhados em Campinas (SP) e suas produções são semeadas em diversos espaços.