Ao lerem a versão original de um conto da coletânea Black Enough, turmas do 9º ano puderam ampliar vocabulário e compreensão de texto, enquanto discutiam amizade, afeto entre garotos, desejos e frustrações
REPORTAGEM Rosi Rico


Jason Reynolds é o autor de The Ingredients, que narra um dia na vida de garotos moradores do Brooklyn, em Nova York. Crédito: Divulgação
É verão no Brooklyn, um distrito de Nova York. Depois de uma tarde na piscina pública, quatro meninos negros saem da água com fome. No caminho de volta para casa, eles passam por mercadinhos que exibem cartazes de sanduíches na vitrine e começam a montar, em voz alta, o lanche perfeito. Um sugere um tipo de carne. Outro, alguns acompanhamentos. Alguém defende um ingrediente improvável, os amigos provocam uns aos outros e riem. Chegam ao apartamento de um deles, num bloco de prédios modestos, e comem cereal com leite. E açúcar.
Essa é a história de The Ingredients, conto de Jason Reynolds publicado em Black Enough: Stories of Being Young & Black in America, uma antologia editada pela escritora Ibi Zoboi, com 17 histórias que tratam sobre o que é ser jovem e negro nos Estados Unidos, hoje em dia. Os textos, escritos por jovens escritores e dirigidos a adolescentes, exploram temas como pressão dos colegas e relações afetivas e identidade.
Lido no original inglês, The Ingredients mobilizou as turmas do 9º ano do Vera no ano passado e no 1º semestre deste ano, em várias discussões propostas pelas professoras Adriana Talocchi e Patrícia Piesco Polifemi. O objetivo era utilizar a literatura para apresentar às turmas autores e mundos diversos, em um movimento coerente com o currículo do Vera, que busca uma formação pautada por múltiplas perspectivas, e não apenas a eurocêntrica.
“O principal atrativo do texto era a possibilidade de gerar identificação por parte dos estudantes”, explica Adriana, que, neste ano, assumiu como orientadora de Inglês do 8º e 9º anos. O conto de Jason mostra garotos negros se divertindo com os amigos, com as preocupações e preferências típicas dessa faixa etária.
Além da identificação, a escolha reflete uma estratégia intencional para desmistificar a ideia de que as pessoas têm de representar certos papéis. “Queríamos quebrar estereótipos e tirar as pessoas das caixinhas. Como Izi Zoboi aponta na introdução do livro, ‘Jason Reynolds captura plenamente a #blackboyjoy na história. Não há ameaças constantes que impeçam os personagens de brincar, fazer graça e simplesmente aproveitar a vida de maneira leve e despreocupada’”, conta Patrícia.
Essa opção acrescentou camadas a serem discutidas com as turmas. Enquanto exercitavam os conhecimentos da língua inglesa e ampliavam o vocabulário, os estudantes puderam debater o que é um dia ideal de diversão ao lado dos colegas em pleno verão, e também refletir sobre o que é desejar algo e não conseguir realizar aquilo.
O próprio autor foi o estímulo para introduzir outro tema na conversa. Como parte do trabalho, todos leram uma entrevista com Jason Reynolds, na qual ele explica por que seus personagens masculinos demonstram emoções. O escritor conta que cresceu em uma sociedade que exigia que ele fosse tough, durão, sem demonstrar medo. Justamente por isso, agora, ele quer mostrar aos garotos que eles podem expressar o que sentem.
Segundo as professoras, a questão de gênero também está presente em sala. As garotas se abraçam sem constrangimento, enquanto os meninos demonstram carinho “com empurrãozinho, tapinha, um jeitinho bruto, num limite tênue entre brincadeira e agressão”, conta Adriana. A leitura do texto de Jason, pontua a orientadora, propõe uma pergunta que raramente aparece em voz alta: “Os meninos precisam ser durões?”

A importância da leitura do original
No ensino de idiomas, é comum que a literatura chegue aos estudantes em versões adaptadas, os chamados graded readers, com vocabulário e enredos simplificados por nível. As professoras optaram por apresentar às turmas a versão original. “Eles têm 14 anos e estão lendo o que qualquer adolescente ou jovem adulto nativo está lendo também”, explica Patrícia.
O efeito vai além da ampliação de vocabulário. “É ótimo para a autoconfiança e a autoestima deles, pois os alunos pensam: ‘Nossa, já li um texto que não é adaptado’”, afirma Adriana.
Pela proposta, a leitura do conto foi realizada por trechos. A cada etapa, os estudantes precisavam responder a questões que visavam acompanhar a compreensão do texto. Isso foi feito em dinâmicas de interação variadas, com discussões e registros das respostas realizados em duplas ou no coletivo. Houve também momentos de atividade individual.
Adriana explica que o foco dessas produções textuais não era a precisão gramatical, mas a compreensão da história, que, muitas vezes, foi sendo construída coletivamente. “Na troca entre eles, quem havia entendido mais explicava para quem havia entendido menos. E esse movimento também gera um aprendizado, porque exige outra habilidade. Ao explicar, preciso elaborar o que compreendi e resumir para o outro”.

No fim, todos os estudantes escreveram sobre o que entenderam ser o tema principal da história. Para algumas turmas, a pergunta pediu uma comparação entre o que imaginaram que seria a narrativa quando sabiam apenas o título do conto com o que encontraram ao ler todo o texto. “A maioria respondeu friendship, amizade”, conta Adriana.
Para Patrícia, o projeto pode ser avaliado pelos objetivos linguísticos, de aquisição de vocabulário e compreensão da estrutura da língua. Mas também pela ampliação de repertório, que é algo construído continuamente, a cada trabalho, interação ou experiência diferente. “A arte, de maneira geral, e no nosso caso, a literatura, sensibiliza as pessoas e ajuda a entrar em outros mundos. Você conhece coisas novas, se identifica com algumas partes e com outras não, percebe diferenças e semelhanças.”
Para saber mais
LIVRO Black Enough: Stories of Being Young & Black in America, editado por Idi Zoboi. HarperCollinsChildren’sBooks. 2019.
ENTREVISTA Jason Reynolds, autor de The Ingredients, para Time for Kids.
VÍDEO Izi Zoboi comenta a edição do livro Black Enough Black Enough: Stories of Being Young & Black in America.
PROJETO Leitura da história The Ingredients, de Jason Reynolds
PROFESSORAS Adriana Talocchi e Patrícia Piesco Polifemi
ORIENTADORA Adriana Talocchi
COORDENADORA Valéria Moraes Novoa